SAFO Comando
O veículo militar brasileiro com motor a álcool na traseira, suspensão independente e câmbio automático que antecipou o futuro em 1979 — e desapareceu sem uma única encomenda.
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SAFO Comando: o jipe militar que estava quase 20 anos à frente do Brasil
Em 1979, enquanto o Exército Brasileiro ainda rodava com jipes herdados da Segunda Guerra, uma fabricante carioca de prensas hidráulicas e o Instituto Militar de Engenharia apresentaram um veículo de combate de concepção radical: motor seis-cilindros a álcool montado na traseira, 171 cavalos, suspensão independente nas quatro rodas, câmbio automático e direção hidráulica. Seu nome era SAFO Comando — e nunca passou de dois protótipos.
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O Brasil de 1979
Para entender o SAFO Comando, é preciso entender o país que o gerou. O fim dos anos 1970 era um Brasil de contradições profundas: vivia-se a ditadura militar, a crise do petróleo de 1973 ainda pressionava a economia, e o governo Geisel lançava o Proálcool como resposta estratégica à dependência do petróleo estrangeiro.
Era um país que precisava urgentemente de soberania energética — e as Forças Armadas sabiam disso melhor do que ninguém. Foi nesse cenário que uma empresa improvável decidiu que tinha algo a dizer ao Exército Brasileiro.
A Jamy, uma fabricante improvável
A Jamy Indústria e Comércio de Máquinas e Ferramentas não era uma montadora. Fabricava prensas hidráulicas, furadeiras industriais e máquinas extrusoras. Mas, ao longo dos anos 1970, acumulou um histórico impressionante de projetos especiais para as Forças Armadas: foram dela os primeiros veículos brasileiros de combate a incêndio em aeroportos, os limpa-pistas para os campos de pouso da Aeronáutica e um sofisticado sistema de tração total — o Jamy 4 — que disputava terreno diretamente com o equivalente da Engesa.
Tinha uma equipe técnica extraordinária e uma ambição clara: entrar no mercado de veículos militares, dominado quase com exclusividade pela Engesa.
O SAFO original, o projeto que veio antes
O Comando não surgiu do nada. Ele foi precedido pelo SAFO original — sigla para Sistema de Alta Flexibilidade Operacional —, uma mula mecânica desenvolvida em 1978 em parceria com o IME, no Rio de Janeiro. Já trazia a marca do pensamento fora do padrão: motor Volkswagen 1300 de 38 cv, tração nas quatro rodas, transmissão por correntes, freios a disco nas saídas da caixa de transferência e pneus largos de baixa pressão para solos moles.
Sua característica mais notável, porém, era a suspensão engenhosa: os braços traseiros podiam ser articulados para a frente e parte da plataforma de carga era rebatida, reduzindo o comprimento total do veículo em quase oitenta centímetros — um artifício pensado para facilitar o transporte aéreo e permitir operação a partir de aeronaves da FAB. Era o prólogo necessário para o que viria a seguir.
O Comando: um jipe de combate de outro planeta
Em 1979, a Jamy e o IME apresentaram o segundo projeto da parceria. E se o SAFO original já era avançado, o Comando era de outro planeta. A primeira grande decisão foi colocar o motor na traseira — não por estética, mas por estratégia: a posição redistribuía o peso, melhorava a tração nas rodas traseiras e protegia a mecânica durante o combate.
E o motor escolhido para ocupar essa posição era nada menos que o seis-cilindros em linha do Chevrolet Opala, preparado para funcionar com álcool e entregando 171 cavalos. Numa época em que praticamente nenhum veículo de combate no mundo cogitava usar biocombustível, o SAFO Comando já nascia alinhado à realidade energética brasileira, aproveitando a infraestrutura que o próprio Proálcool construía. Era soberania na prática.
Tecnologia que ninguém mais tinha
A inovação não parava no motor. O Comando trazia suspensão independente nas quatro rodas por molas helicoidais — sofisticação que pouquíssimos militares da época podiam reivindicar —, direção hidráulica, diferencial autoblocante e câmbio automático com conversor de torque. A caixa de transferência tinha reduzida e tomada de força para guincho. Os freios eram a disco, instalados diretamente nas saídas do diferencial, solução que reduzia o peso não suspenso e melhorava a frenagem em terreno irregular.
A estrutura era tubular em aço, incluindo o santantônio. As rodas e pneus vieram do Dodge Commando norte-americano, o veículo da Segunda Guerra de três toneladas e meia que o Exército ainda usava — exatamente o tipo de viatura que o SAFO se propunha a substituir. Segundo o Lexicar Brasil, o resultado antecipou em quase vinte anos a VLEGA Gaúcho, desenvolvida só no século XXI com características semelhantes para as Brigadas Paraquedistas dos Exércitos brasileiro e argentino.
Dois protótipos. Nenhuma encomenda.
Os testes foram bem-sucedidos. E então veio o silêncio. O Exército Brasileiro, que rodava com jipes da era da Segunda Guerra e precisava desesperadamente de uma viatura moderna, não comprou um único exemplar. Por quê?
A resposta não é simples. No campo externo, a Engesa dominava o mercado militar brasileiro com anos de contratos consolidados e um peso político e industrial que a Jamy não tinha como enfrentar sem apoio do Estado. No campo interno, a própria Jamy sofria de gestão fraca, custos administrativos desproporcionais e uma aposta excessiva em verticalização que consumia recursos sem gerar retorno. Sem demanda garantida e sem capital, a conta não fechava.
O legado que o Brasil não soube guardar
A história do SAFO Comando é um espelho incômodo. Ela mostra que o Brasil tinha, em 1979, a capacidade técnica e intelectual para desenvolver um veículo militar de padrão internacional: engenheiros capazes, uma parceria sólida com o IME e um contexto energético que tornava o projeto estrategicamente relevante.
O que faltou foi o ecossistema — gestão empresarial madura para transformar protótipo em produto, apoio estatal para transformar projeto em programa de aquisição e visão de longo prazo. Décadas depois, o Exército ainda buscaria um jipe leve aerotransportável, com suspensão independente e estrutura tubular. Ele chegou na forma do Gaúcho. O SAFO Comando já era tudo isso em 1979.
ELE VIROU FANTASMA.
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