Koizyztraña

Koizyztraña — A gaiola amarela
Koizyztraña — fundo
Koizyztraña
Ano
198?
Protótipo MOTOR 3
Arquivo perdido
MOTOR 3 KOIZYZTRAÑA A GAIOLA AMARELA

O semi-off-road que a própria redação da Revista Motor 3 construiu à mão sobre um Ford Landau — e que depois sumiu sem deixar rastro.

Destino desconhecido
ÁLCOOL
motor
herdado
GAIOLA
estrutura
tubular
1 DE 1
exemplar
único

Koizyztraña: a gaiola amarela que uma redação inteira construiu — e o Brasil nunca chegou a conhecer

Ele não saiu de uma fábrica. Saiu de uma redação de revista. Nos anos 80, a equipe da Motor 3 pegou a base de um sedã de luxo, vestiu o chassi com uma gaiola tubular pintada de amarelo-Kodak e saiu rodando — com álcool escorrendo pelo chão e o ventilador assobiando como turbo.

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Nascido na redação, não na fábrica

No começo dos anos 1980, a redação da revista Motor 3 resolveu ir além de escrever sobre carros: decidiu construir um. Não um protótipo de montadora, com departamento de engenharia e verba de projeto — mas um veículo tocado pela própria equipe, no impulso de quem cobre o assunto e quer botar a mão na massa.

O resultado foi o Koizyztraña: um nome estranho de propósito, para um carro que nasceu fora de qualquer padrão da indústria.

Um semi-off-road para o asfalto e a trilha

A ideia era um semi-off-road capaz de transitar bem nos dois mundos: encarar a estrada de terra e a areia sem deixar de funcionar no dia a dia. Estrutura aberta, postura agressiva e uma proposta que misturava buggy, gaiola e carro de aventura — algo que não existia pronto em catálogo nenhum.

A base improvável: um Ford Landau

A escolha foi inesperada: um Ford Landau, sedã de luxo. Mas a equipe manteve os 3,0 metros de entre-eixos originais de propósito — era o que garantia espaço para quatro ocupantes. Em cima desse chassi, reconstruíram tudo ao redor de uma gaiola tubular de aço, que virou ao mesmo tempo proteção e identidade visual do carro.

Base LANDAU Ford Landau de luxo, com 3,0 m de entre-eixos
Estrutura GAIOLA Tubular de aço, amarelo-Kodak sobre preto
Motor ÁLCOOL Herdado do Landau — sobrava força com 1.100 kg
Raridade 1 DE 1 Provável exemplar único no mundo

Amarelo-Kodak, misturado à mão

A direção de arte de Sílvio Magarian pediu uma cor específica: o amarelo-Kodak, aquele tom inconfundível das caixinhas de filme — que não existia em nenhuma carta de cores automotiva. Coube ao pintor Norberto acertar o tom misturando a tinta à mão, até bater certo. A parte inferior ficou em preto, fazendo a estrutura da gaiola saltar aos olhos.

O motor que assobiava como turbo

O motor a álcool, herdado do Landau, movia quase 1.900 kg no sedã original. No Koizyztraña, com cerca de 1.100 kg, sobrava força: o carro acelerava com a empolgação de uma moto de média cilindrada. Em alta rotação, o ventilador cromado soltava um assobio agudo — quem ouvia de fora jurava que era um turbo girando.

O câmbio manual mal dava conta da entrega de força, e a equipe já cogitava trocá-lo por um automático de alto estol. Nos planos mais ousados, havia até a ideia de um duplo-turbo atuando nas baixas rotações.

Foi caótico. Foi improvisado. Foi completamente fora dos padrões — e, ao mesmo tempo, genuinamente original.

Flutuava na areia, patinava na lama

Calçado com rodas Mangels e pneus Maggion 10×15, o Koizyztraña flutuava bem na areia, mas patinava na lama. A relação entre o peso e a área de contato era tão favorável que o carro quase não deixava marca no solo: avançava firme onde jipes e Toyotas afundavam.

A equipe ainda planejava três jogos de pneu para terrenos diferentes — radiais para o asfalto, um off-road Goodyear que estavam ansiosos para testar e uma borracha específica para areia.

Quando a aventura cobrou o preço

A empolgação veio acompanhada de sustos. Logo na primeira saída, o freio falhou: o flexível da dianteira direita apodreceu e vazou. Depois, o tanque furou na lateral e derramou 50 litros de álcool no chão do posto. E, no meio de uma sessão de fotos, o carro ainda arrumou tempo de ultrapassar um Landau automático numa estrada de terra.

A decisão
A redação da Motor 3 resolve ir além de escrever sobre carros e construir um do zero.
A rua e a areia
O carro acelera como moto, flutua na areia e ultrapassa um Landau automático no chão de terra.
Os perrengues
O flexível do freio dianteiro direito apodrece e vaza; depois o tanque fura e despeja 50 litros de álcool.
O sumiço
Sem homologação, sem série, sem registro — o protótipo simplesmente desaparece.

Planos que nunca saíram do papel

O projeto previa muito mais do que se viu. Uma carroceria modular, com painéis removíveis de 12 a 15 kg, que permitiriam fechar ou abrir o carro em várias configurações. Um capô com tampa de acrílico translúcido para deixar o motor à mostra. No interior, bancos Recaro e um sistema de som Bosch embutido nos apoios de cabeça, para cada passageiro ouvir a própria música. Havia ainda amortecedores específicos em desenvolvimento e a intenção de levar o carro a salões e feiras a partir de setembro/outubro, em versões com materiais diferentes.

O fim silencioso

E então o Koizyztraña simplesmente desapareceu. Sem encerramento formal, sem leilão, sem museu — sumiu como tantos protótipos brasileiros daquela época. Nunca foi homologado pelo Detran, nunca teve CNPJ de fabricante, nunca recebeu número de série.

É que ele nunca foi um produto comercial: era um projeto editorial, nascido da paixão de uma equipe. Quando as circunstâncias mudaram, ele deixou de existir.

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Um único exemplar

Provavelmente só um Koizyztraña foi construído em todo o mundo. Ele nunca foi homologado pelo Detran, nunca teve CNPJ de fabricante e nunca recebeu número de série — porque nunca foi um produto, e sim um projeto editorial. Hoje sobrevive apenas nas páginas da revista que o criou e, quem sabe, esquecido em alguma garagem que ninguém identificou.

Por que o Koizyztraña importa

Ele encapsula um momento em que a criatividade brasileira sobre quatro rodas não tinha medo de arriscar — quando uma redação de revista podia decidir construir um veículo do zero, inventar à mão uma cor que não existia e sair dirigindo com álcool escorrendo pelo chão. Não virou produto, não virou série, não virou lenda conhecida. Mas existiu — e, para o Brasil dos anos 80, isso já era uma façanha e tanto.

O KOIZYZTRAÑA NÃO VIROU SÉRIE NEM LENDA.
MAS EXISTIU.

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