Koizyztraña
O semi-off-road que a própria redação da Revista Motor 3 construiu à mão sobre um Ford Landau — e que depois sumiu sem deixar rastro.
herdado
tubular
único
Koizyztraña: a gaiola amarela que uma redação inteira construiu — e o Brasil nunca chegou a conhecer
Ele não saiu de uma fábrica. Saiu de uma redação de revista. Nos anos 80, a equipe da Motor 3 pegou a base de um sedã de luxo, vestiu o chassi com uma gaiola tubular pintada de amarelo-Kodak e saiu rodando — com álcool escorrendo pelo chão e o ventilador assobiando como turbo.
Render 01
Render 02
Render 03
Render 04
Arte 01
Arte 02
Arte 03
Arte 04
Acervo 01
Acervo 02
Acervo 03
Acervo 04
Acervo 05
Nascido na redação, não na fábrica
No começo dos anos 1980, a redação da revista Motor 3 resolveu ir além de escrever sobre carros: decidiu construir um. Não um protótipo de montadora, com departamento de engenharia e verba de projeto — mas um veículo tocado pela própria equipe, no impulso de quem cobre o assunto e quer botar a mão na massa.
O resultado foi o Koizyztraña: um nome estranho de propósito, para um carro que nasceu fora de qualquer padrão da indústria.
Um semi-off-road para o asfalto e a trilha
A ideia era um semi-off-road capaz de transitar bem nos dois mundos: encarar a estrada de terra e a areia sem deixar de funcionar no dia a dia. Estrutura aberta, postura agressiva e uma proposta que misturava buggy, gaiola e carro de aventura — algo que não existia pronto em catálogo nenhum.
A base improvável: um Ford Landau
A escolha foi inesperada: um Ford Landau, sedã de luxo. Mas a equipe manteve os 3,0 metros de entre-eixos originais de propósito — era o que garantia espaço para quatro ocupantes. Em cima desse chassi, reconstruíram tudo ao redor de uma gaiola tubular de aço, que virou ao mesmo tempo proteção e identidade visual do carro.
Amarelo-Kodak, misturado à mão
A direção de arte de Sílvio Magarian pediu uma cor específica: o amarelo-Kodak, aquele tom inconfundível das caixinhas de filme — que não existia em nenhuma carta de cores automotiva. Coube ao pintor Norberto acertar o tom misturando a tinta à mão, até bater certo. A parte inferior ficou em preto, fazendo a estrutura da gaiola saltar aos olhos.
O motor que assobiava como turbo
O motor a álcool, herdado do Landau, movia quase 1.900 kg no sedã original. No Koizyztraña, com cerca de 1.100 kg, sobrava força: o carro acelerava com a empolgação de uma moto de média cilindrada. Em alta rotação, o ventilador cromado soltava um assobio agudo — quem ouvia de fora jurava que era um turbo girando.
O câmbio manual mal dava conta da entrega de força, e a equipe já cogitava trocá-lo por um automático de alto estol. Nos planos mais ousados, havia até a ideia de um duplo-turbo atuando nas baixas rotações.
Flutuava na areia, patinava na lama
Calçado com rodas Mangels e pneus Maggion 10×15, o Koizyztraña flutuava bem na areia, mas patinava na lama. A relação entre o peso e a área de contato era tão favorável que o carro quase não deixava marca no solo: avançava firme onde jipes e Toyotas afundavam.
A equipe ainda planejava três jogos de pneu para terrenos diferentes — radiais para o asfalto, um off-road Goodyear que estavam ansiosos para testar e uma borracha específica para areia.
Quando a aventura cobrou o preço
A empolgação veio acompanhada de sustos. Logo na primeira saída, o freio falhou: o flexível da dianteira direita apodreceu e vazou. Depois, o tanque furou na lateral e derramou 50 litros de álcool no chão do posto. E, no meio de uma sessão de fotos, o carro ainda arrumou tempo de ultrapassar um Landau automático numa estrada de terra.
Planos que nunca saíram do papel
O projeto previa muito mais do que se viu. Uma carroceria modular, com painéis removíveis de 12 a 15 kg, que permitiriam fechar ou abrir o carro em várias configurações. Um capô com tampa de acrílico translúcido para deixar o motor à mostra. No interior, bancos Recaro e um sistema de som Bosch embutido nos apoios de cabeça, para cada passageiro ouvir a própria música. Havia ainda amortecedores específicos em desenvolvimento e a intenção de levar o carro a salões e feiras a partir de setembro/outubro, em versões com materiais diferentes.
O fim silencioso
E então o Koizyztraña simplesmente desapareceu. Sem encerramento formal, sem leilão, sem museu — sumiu como tantos protótipos brasileiros daquela época. Nunca foi homologado pelo Detran, nunca teve CNPJ de fabricante, nunca recebeu número de série.
É que ele nunca foi um produto comercial: era um projeto editorial, nascido da paixão de uma equipe. Quando as circunstâncias mudaram, ele deixou de existir.
Por que o Koizyztraña importa
Ele encapsula um momento em que a criatividade brasileira sobre quatro rodas não tinha medo de arriscar — quando uma redação de revista podia decidir construir um veículo do zero, inventar à mão uma cor que não existia e sair dirigindo com álcool escorrendo pelo chão. Não virou produto, não virou série, não virou lenda conhecida. Mas existiu — e, para o Brasil dos anos 80, isso já era uma façanha e tanto.
MAS EXISTIU.
Comentários
Postar um comentário