IPEI Cauré
O utilitário leve que padres jesuítas projetaram em computador, vestiram de kevlar e moveram com um motor de moto Honda — e que o Brasil deixou escapar.
blindada
de moto
desconhecido
Cauré: o carro de kevlar, projetado em computador e movido a moto, que o Brasil esqueceu
Ele não saiu de uma montadora. Saiu de uma faculdade de engenharia fundada por padres jesuítas. Em 1984, o IPEI vestiu um utilitário leve com carroceria de kevlar — o material dos coletes à prova de bala —, calculou tudo em computador e instalou no centro do carro o motor de uma moto Honda. O nome era Cauré. E o Brasil deixou ele escapar.
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Acervo
Padres, engenharia e um falcão
Cauré é o nome de uma ave de rapina brasileira — um falcão ágil e veloz, de origem tupi-guarani. A escolha não foi por acaso. O projeto saiu do IPEI, o Instituto de Pesquisas e Estudos Industriais, braço tecnológico da FEI, a Fundação Educacional Inaciana criada em 1945 pelo padre jesuíta Roberto Sabóia de Medeiros.
A FEI tinha se instalado em São Bernardo do Campo nos anos 60 justamente para formar engenheiros para o ABC paulista. Era, literalmente, uma faculdade de engenharia fundada por padres, no coração da indústria automobilística brasileira, que resolveu construir um carro. E não um carro qualquer.
Kevlar, computador e um motor de moto
O Cauré tinha 3,20 metros e foi pensado como plataforma modular: previa versões em furgão, ambulância, van e viatura policial — uma família inteira de veículos sobre a mesma base. Mas o que o tornava realmente extraordinário era a forma como ele foi construído.
A carroceria era moldada em composto de epóxi e kevlar, com espessura calculada ponto a ponto conforme os esforços estáticos e dinâmicos de cada região. O resultado pesava 70% menos que o equivalente em aço. Toda a concepção e os cálculos estruturais foram feitos em computador — o que faz do Cauré o primeiro carro brasileiro projetado integralmente assim. Em 1984, isso era avançado até para os padrões internacionais.
O coração veio da Honda CB400, a moto mais desejada do país na época, que chegava às concessionárias com fila de espera e ágio no preço. O propulsor de 395 cc, dois cilindros paralelos e 40 cavalos foi adaptado para queimar álcool e montado em posição central. O consumo calculado chegava a 17,6 km/l — número invejável até hoje para um veículo de carga. Eram dois lugares e até 220 kg de carga útil. O Cauré estreou na feira Brasil Transpo 84.
Quando o Cauré virou Cérbero
Em 1987, os engenheiros do IPEI fizeram uma troca fundamental: a mecânica da Honda CB400 deu lugar à do Volkswagen Gol 1.6. Com a mudança, o protótipo ganhou novo nome — Cérbero, o cão de três cabeças que guarda o submundo na mitologia grega.
Tecnicamente, a troca fazia sentido: o motor do Gol era mais robusto, mais fácil de manter e tinha uma rede de peças consolidada no Brasil. Mas o novo nome carregava um simbolismo pesado. Coincidência? Talvez. Ou talvez os engenheiros já soubessem que o projeto estava preso em algum inferno burocrático sem saída.
A década perdida cobrou o preço
A história do Cauré é inseparável do Brasil dos anos 80. O país vivia a chamada "década perdida": inflação galopante, recessão profunda e corte de investimento público em pesquisa. Para um protótipo universitário virar produto industrial, faltava um parceiro empresarial ou financiamento estatal — e nenhum dos dois apareceu.
O mercado automotivo vivia duas distorções ao mesmo tempo: fechamento total à importação e hiperinflação. Os carros nacionais eram caros e tecnologicamente defasados, e as montadoras estabelecidas não tinham nenhum incentivo para apostar em tecnologia disruptiva vinda de fora do próprio ecossistema.
Havia ainda outro fator: em outubro de 1984 — mesmo ano da estreia do Cauré — o governo aprovou a Lei Federal 7.232, a Reserva de Mercado de Informática. Voltada à tecnologia da informação, ela sinalizava um ambiente que protegia o que já existia e abria mão de investir no novo. O IPEI não era uma montadora. Sem escala industrial, sem rede de fornecedores, sem capital de giro e sem vontade política, o Cauré foi ficando para trás enquanto o mundo avançava.
Onde está o Cauré hoje?
Esta é a pergunta que ninguém consegue responder com certeza. Não há registro público confirmado de que o Cauré — nem o Cérbero, sua versão de 1987 — tenha sido preservado em museu, acervo universitário ou coleção particular. Como aconteceu com tantos protótipos brasileiros da época, é provável que o veículo tenha sido desmontado, abandonado ou simplesmente perdido para o tempo.
A FEI preservou outros projetos históricos ao longo dos anos, mas o Cauré não figura em nenhuma lista de acervo institucional disponível ao público.
Por que o Cauré importa
Ele resume um momento em que a engenharia brasileira não tinha medo de arriscar: uma faculdade fundada por padres calculando carroceria de kevlar no computador, emprestando o motor de uma moto e sonhando com uma família inteira de utilitários sobre a mesma base. Não virou produto, não virou linha de montagem, não virou lenda conhecida. Mas existiu — e, para o Brasil de 1984, isso já era uma façanha e tanto.
MAS EXISTIU.
Revista Motor 3 (maio/1986) · Revista Quatro Rodas (fev./1988) · Lexicar Brasil
Colaboração: Lindeberg de Menezes Jr · Fotos: Silvio Magarian
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